Falta de mão de obra leva produtores a investir em cursos de sangria no interior de SP
Em Mirassol, demanda por profissionais qualificados para extração de látex movimenta treinamentos e atrai desde donas de casa até ex-jogador de futebol
A escassez de trabalhadores qualificados para a sangria da seringueira – atividade essencial para a extração do látex – tem se tornado um gargalo para produtores rurais do interior de São Paulo. Em resposta, fazendeiros da região de Mirassol (SP) passaram a financiar cursos de capacitação, que vêm atraindo perfis inusitados, como donas de casa, jovens em busca de renda e até um ex-jogador de futebol profissional.
O curso, promovido por uma associação de produtores em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), ensina técnicas precisas de corte, manejo sustentável da árvore e cuidados com o látex, desde a coleta até o beneficiamento inicial. Com carga de 40 horas, a formação prevê aulas teóricas e práticas em seringais da região.
“Sem o sangrador, o látex não sai. E sem látex, não há borracha. Hoje, muitas fazendas têm seringais prontos para produzir, mas param por falta de braço especializado”, afirma Rafael Mendes, produtor rural e um dos idealizadores da iniciativa.
A demanda por mão de obra aumentou nos últimos anos com a retomada da heveicultura no estado. Dados da Secretaria de Agricultura de SP indicam que a área plantada com seringueiras cresceu 12% desde 2020, mas o número de trabalhadores com domínio da sangria caiu quase 30% no mesmo período, em razão do êxodo rural e do envelhecimento dos profissionais.
Entre os alunos do curso está Ademar Silva, ex-volante de um clube do interior paulista. Aos 48 anos, ele viu na sangria uma oportunidade de recomeço. “No futebol, o corpo cobra o preço. Aqui aprendi um ofício que me dá dignidade e ainda ajuda a manter as árvores vivas”, conta.
O curso também desperta interesse de mulheres. Maria Aparecida Lima, dona de casa de 52 anos, concluiu o treinamento e já trabalha em uma propriedade local. “Nunca imaginei manejando seringueira, mas o serviço é técnico e bem pago. Estou ganhando o dobro do que ganhava antes.”
A expectativa dos organizadores é formar 150 novos sangradores até o fim do ano. Enquanto isso, produtores já estudam a criação de um selo de certificação profissional e um banco de talentos para conectar trabalhadores qualificados às fazendas.
Com o treinamento, a região tenta reverter uma crise de mão de obra que, segundo especialistas, pode comprometer a produção nacional de borracha natural nos próximos anos se não houver investimento maciço em qualificação.
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