Parque Estadual Morro do Diabo: o gigante verde que guarda a maior Mata Atlântica do interior paulista

 


Parque Estadual Morro do Diabo: o gigante verde que guarda a maior Mata Atlântica do interior paulista

fonte da imagem: G1 Globo


Santuário de 33.845 hectares preserva espécies ameaçadas e resiste ao fogo há mais de uma década











No extremo oeste paulista, onde o Rio Paranapanema faz divisa com o Paraná, um gigante verde se mantém de pé contra o avanço do tempo e da degradação ambiental. O Parque Estadual Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio (SP), abriga o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica do interior do estado – uma área de 33.845 hectares de floresta tropical estacional semidecidual que resiste como um verdadeiro "baú precioso", nas palavras do gestor Eriqui Inazaki.

Criado originalmente como reserva em 1941 e transformado em parque em 1986, o local é uma das áreas-núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Brasileira. A floresta que hoje se preserva ali cobria originalmente parte dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, até ser fragmentada por décadas de desmatamento. Por isso, a área protegida representa não apenas um patrimônio ambiental, mas uma memória viva do bioma que um dia dominou o interior do país.

Santuário do mico-leão-preto e da onça-pintada

A riqueza biológica do Morro do Diabo impressiona. O parque abriga a maior população livre do mundo de mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), um primata que chegou a ser considerado extinto na década de 1970 antes de ser redescoberto na reserva. Hoje, cerca de 1,3 mil indivíduos são monitorados por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) em um trabalho que envolve translocação de grupos e plantio de corredores florestais para reconectar fragmentos isolados. 

A fauna local também inclui espécies ameaçadas como a anta, queixada, bugio, puma e onça-pintada – esta última, símbolo máximo da cadeia alimentar, tem sua sobrevivência diretamente ligada à integridade da floresta. "São animais topo de cadeia que, se a gente não cuidar, em alguns anos não vão existir mais", alerta Inazaki. 

Na flora, o destaque fica por conta da peroba-rosa, espécie essencial para projetos de reflorestamento, cuja maior reserva mundial encontra-se dentro dos limites do parque. 

Dez anos sem fogo: um case de sucesso

fonte da imagem: G1 Globo



Em uma região historicamente castigada por queimadas – só em 2024, foram registrados 738 incêndios na área de Presidente Prudente – o Morro do Diabo se destaca como exemplo de gestão ambiental. A unidade não registra focos de incêndio há mais de dez anos, com o último ocorrendo em 2012. 

O segredo está na integração entre poder público e comunidade: são 180 km de aceiros abertos anualmente em parceria com prefeituras e usinas, rondas diárias de vigilância, monitoramento por satélite via sistema Pantera e comunicação rápida com produtores rurais do entorno. "Aqui, perder uma árvore centenária, uma onça-pintada, são valores imensuráveis. Quem perde é a humanidade", resume o gestor. 

Ecoturismo e educação ambiental

Além da conservação, o parque tem se consolidado como polo ecoturístico no oeste paulista. Cerca de 2 mil visitantes por mês percorrem trilhas como a do Morro do Diabo – que leva ao topo de uma formação geológica de arenito silicificado, a 600 metros de altitude, com vista panorâmica da região – e a da Lagoa Verde, acessível para cadeirantes. 

A programação inclui ainda ciclorrotas, montanhismo e observação de fauna. A entrada é gratuita e deve ser agendada previamente pela internet. O contato direto com o bioma, especialmente para estudantes da região, tem se mostrado uma ferramenta poderosa de conscientização. 

Entre lendas e ciência

O nome incomum do parque carrega histórias que atravessam gerações. Uma das lendas mais difundidas conta que, após um grupo de bandeirantes massacrar uma aldeia indígena, os colonizadores foram mortos e pendurados no topo do morro – e quando outros os avistaram sem ninguém por perto, atribuíram o feito ao "diabo". Outra versão remete à "correnteza do diabo", trecho do Rio Paranapanema mapeado em 1886.

O governo estadual chegou a avaliar, em 2021, a troca do nome para "Parque Estadual Onça-Pintada", mas a proposta não avançou. O Morro do Diabo segue, portanto, carregando a força de seu nome e, principalmente, o peso de sua missão: proteger a maior joia verde do interior paulista para as futuras gerações. 













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