Diagnóstico de comorbidades e quase 450 mortes registradas: painel aponta como é a saúde de detentos no Oeste Paulista

 


Diagnóstico de comorbidades e quase 450 mortes registradas: painel aponta como é a saúde de detentos no Oeste Paulista


fonte da imagem: G1 Globo


Levantamento inédito do NEV/USP revela sistema prisional sobrecarregado, falta de assistência médica regular e alta mortalidade em cadeias da região












Um retrato preocupante da saúde da população carcerária do Oeste Paulista foi divulgado nesta quarta-feira (27) por pesquisadoras do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP). O painel, que reúne dados oficiais e levantamentos de campo, aponta que, nos últimos cinco anos, quase 450 detentos morreram dentro das unidades prisionais da região — uma média de 90 óbitos por ano, muitos deles evitáveis com atendimento básico.

As informações compiladas pelo g1 mostram que o principal problema não são apenas as superlotações, mas a falta de diagnósticos precoces. Mais de 60% dos presos entrevistados relataram nunca ter passado por uma consulta médica de rotina desde que foram encarcerados. Entre as comorbidades mais frequentes estão hipertensão, diabetes, tuberculose e HIV — sendo que, em muitos casos, os detentos só descobriam as doenças em estágio avançado, após internações de emergência.

“O que vemos é uma omissão estrutural. O Estado não garante o direito à saúde previsto na Lei de Execução Penal. Sem diagnóstico, não há tratamento; sem tratamento, a morte chega mais cedo”, afirma a criminologista Dra. Camila Mendes, uma das autoras do estudo.

O painel também revela disparidades entre as cadeias do Oeste Paulista. Em Presidente Prudente, por exemplo, a taxa de mortalidade por doenças infecciosas é três vezes maior que a média estadual. Já em Assis e Adamantina, os registros apontam crescimento expressivo de óbitos relacionados a doenças cardiovasculares não tratadas.

Outro dado alarmante: apenas 12% das unidades possuem atendimento médico diário. A maioria depende de visitas semanais de enfermeiros e médicos contratados por horas, o que torna impossível o acompanhamento crônico. A telemedicina, implantada emergencialmente durante a pandemia, foi descontinuada na maior parte das cadeias.

Para a coordenadora do NEV/USP, professora Sandra Lopes, o painel serve como um alerta para o sistema de justiça. “Não se trata de ‘coitadismo’ com criminosos, mas de saúde pública. Essas pessoas um dia voltam para a sociedade, e muitas vezes retornam doentes, sem tratamento, sobrecarregando ainda mais o SUS.”

fonte da imagem: G1 Globo



A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) foi procurada para comentar os dados, mas até a publicação desta reportagem não havia se manifestado. Enquanto isso, familiares de detentos mortos nos últimos meses cobram respostas. “Meu filho reclamava de falta de ar há semanas. Disseram que era ansiedade. Era um infarto”, lamenta dona Maria Aparecida, de Martinópolis.

O estudo será apresentado oficialmente em audiência pública no próximo mês na Assembleia Legislativa de São Paulo. Enquanto isso, o painel permanece disponível online para consulta — um retrato cru de um sistema que mata à míngua.




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