Fã do Rock in Rio no interior de SP relembra quando pediu missão para ir ao festival: "Significa vida pra mim"

 

Fã do Rock in Rio no interior de SP relembra quando pediu missão para ir ao festival: "Significa vida pra mim"

fonte da imagem: G1 Globo



Morador de Álvares Machado, Ildebrando Costa Bibanco, de 63 anos, não perdeu nenhuma edição do festival desde a estreia, em 1985, e já planejou até corte no salário para não perder ao encontro anual com o rock








Álvares Machado, cidade de pouco mais de 25 mil habitantes no interior de São Paulo, fica a mais de 900 quilômetros da Cidade do Rock, no Rio de Janeiro. Para quem mora lá, ir ao Rock in Rio nunca foi uma tarefa simples: são horas de viagem, gastos com hospedagem, ingresso e alimentação, além da logística de conciliar o trabalho com dias de festival. Mesmo assim, há mais de três décadas, o aposentado Ildebrando Costa Bibanco, de 63 anos, encontra um jeito de estar lá. Desde a primeira edição, em 1985, ele não faltou a nenhuma delas — e uma das provas de que o compromisso vai além do gosto musical é a história de quando abriu mão do próprio emprego para não perder o festival.

Na época, Ildebrando trabalhava em uma empresa da região que não liberava férias ou folgas coincidindo com o período do evento. Diante da recusa do superior em ajustar a escala, ele tomou uma decisão que muitas pessoas eram radicais: pediu demissão. "Significa vida pra mim", resume ele ao lembrar do episódio, décadas depois, sem hesitar sobre a escolha que fez.

A frase, dita hoje com a tranquilidade de quem nunca se arrependeu, carrega o peso de uma vida inteira organizada em torno de uma paixão. Para Ildebrando, o Rock in Rio não é apenas um festival de música: é um marcador de tempo, uma espécie de calendário afetivo que separa fases de sua trajetória pessoal. Cada edição carrega lembranças de amigos que fizeram nas filas, de shows que o emocionaram e de mudanças que viveram entre um festival e outro — casamentos, empregos, perdas e reencontros.

Uma paixão que começou em 1985
fonte da imagem: G1 Globo



A primeira edição do Rock in Rio, realizada no Rio de Janeiro em janeiro de 1985, é lembrada até hoje como um marco na história da música e do entretenimento no Brasil. O evento reuniu nomes internacionais e nacionais em um formato até então inédito no país, atraindo um público que ultrapassou a casa de milhões de pessoas ao longo dos dias de apresentação. Foi ali, ainda jovem, que Ildebrando teve o primeiro contato com aquele universo e decidiu que voltaria sempre que pudesse.

O que começou como entusiasmo de adolescente se transformou, ao longo dos anos, em um projeto de vida. A cada nova edição — mesmo nos anos em que o festival passou por hiatos ou mudou de formato —, ele se organizou para garantir presença. Guardava dinheiro, planejava a viagem com meses de antecedência e, quando necessário, negociava com a liberação dos dias de festival. Foi justamente uma dessas negociações, décadas atrás, que não deu certo e o levou à decisão de deixar o emprego.

O preço de uma escolha

Pedir demissão para ir a um show pode subir, para muitos, como um gesto impulsivo. Mas quem convive com fãs de longas datas de grandes festivais sabe que, para eles, esse tipo de decisão tem uma lógica própria. O Rock in Rio deixou de ser, para Ildebrando, um evento pontual para se tornar parte da identidade pessoal — algo que ele não estava disposto a negociar, mesmo que isso significasse abrir mão da estabilidade financeira momentânea.

Passado o susto inicial de ficar sem renda fixa, ele reconstruiu a vida profissional em outras frentes, sem nunca perder de vista o compromisso com o festival. Ao longo dos anos seguintes, conte com pessoas próximas, ele passou a planejar os empregos e os períodos de trabalho justamente pensando em preservar a possibilidade de viajar ao Rio de Janeiro sempre que uma nova edição fosse anunciada. A prioridade dada ao festival moldou, de certa forma, as escolhas profissionais que fizeram depois.

Um ritual que atravessa gerações do festival

Ao longo dos anos, o Rock in Rio passou por diferentes fases: da primeira edição em 1985, marcada pelo ineditismo, até os formatos mais recentes, com múltiplos palcos, atrações internacionais de peso e uma estrutura que se tornou referência mundial entre os grandes festivais de música. Nesse percurso, o público também mudou — famílias inteiras vão hoje ao evento, gerações diferentes dividem o mesmo gramado, e histórias como a de Ildebrando se tornaram símbolos de uma fidelidade que atravessa décadas.

Para quem acompanha de perto a trajetória de fãs históricos do festival, casos assim revelam algo maior do que apenas o gosto por determinado estilo musical: mostrar como um evento pode se entrelaçar à biografia de uma pessoa. Cada edição do Rock in Rio carrega, para Ildebrando, uma camada de memória. Ele associa lineups específicos para momentos de sua própria vida, e é comum ouvi-lo relatar uma apresentação marcante a alguma fase pessoal que vivia naquele ano.

A logística de quem mora longe

Viajar do interior de São Paulo até o Rio de Janeiro para acompanhar dias seguidos de festival não é barato nem simples. Além da posição, é preciso considerar hospedagem — muitas vezes dividida com outros fãs para reduzir custos —, alimentação na cidade e o próprio valor dos ingressos, que ao longo dos anos acompanharam a valorização do evento como um dos maiores do mundo em sua categoria.

Para driblar esses desafios, moradores de cidades distantes do Rio de Janeiro costumam se organizar em grupos, dividir despesas de transporte e planejar a viagem como se fosse uma pequena expedição anual. Não é diferente para Ildebrando, que ao longo dos anos aperfeiçoou a própria rotina de preparação: reserva parte da renda ao longo do ano pensando exclusivamente no festival, mantém contato com outros fãs que fazem o mesmo e organiza os dias de viagem para aproveitar ao máximo cada edição, mesmo com o cansaço acumulado da estrada.

O significado que vai além da música

Quando questionado sobre o que faz alguém manter, por tanto tempo, um compromisso tão custoso financeira e logisticamente, Ildebrando volta à frase que retoma sua relação com o festival. Não se trata apenas de assistir a shows ou acompanhar bandas favoritas — trata-se de reviver, ano após ano, a sensação de pertencimento a algo maior, de reencontrar rostos conhecidos nas filas e nos gramados, de se emocionar com apresentações que, para outros, podem ser apenas mais um show, mas que para ele carregam significados acumulados ao longo de décadas.

Histórias como a dele ajudaram a explicar por que o Rock in Rio se consolidou como um público que ultrapassa a própria música. Para uma parcela do público, o festival se tornou um ponto fixo na vida, um compromisso que resiste às mudanças de emprego, de cidade e até de fase pessoal. Enquanto o festival seguir existindo, é provável que Ildebrando continue fazendo a mesma trajetória de Álvares Machado até a Cidade do Rock, repetindo o ritual que começou ainda jovem, em 1985, e que, segundo suas próprias palavras, significa vida.




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