Batata-doce 'IAC Dom Pedro II': a revolução alaranjada que produz 4 vezes mais e combate a fome oculta
Variedade desenvolvida pelo Instituto Agronômico de Campinas une superprodutividade e altíssimo teor de vitamina A, com potencial para transformar a alimentação escolar e a nutrição no Brasil
Uma nova variedade de batata-doce desenvolvida no interior de São Paulo promete revolucionar o campo e a alimentação escolar devido ao seu superdesempenho e valor nutricional. Batizada de "IAC Dom Pedro II", em homenagem ao fundador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), a cultivar combina uma produtividade até quatro vezes superior à média paulista com um teor de betacaroteno — precursor da vitamina A — que chega a 77 microgramas por grama de polpa fresca, enquanto a maioria das variedades comerciais tradicionais registra menos de 1 micrograma .
A inovação chega em um momento crítico: dados recentes indicam que a fome atingiu 33,1 milhões de brasileiros em 2024, o equivalente a 15,5% da população. Além disso, cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo sofrem com a chamada "fome oculta", uma carência de micronutrientes essenciais como vitamina A, ferro e zinco . A nova batata-doce surge como uma ferramenta estratégica de biofortificação — processo que aumenta o teor de nutrientes na parte comestível das plantas.
Superprodução no campo
Os testes da nova cultivar estão sendo realizados em uma área de meio hectare no Centro de Produção e Transferência de Tecnologia Agropecuária (CPTTA), em São José do Rio Preto (SP). Os resultados impressionam: o potencial produtivo da "IAC Dom Pedro II" gira em torno de 80 toneladas por hectare, volume que supera em quatro vezes a média de produtividade atual do estado de São Paulo e chega a ser cinco vezes maior que a média nacional para a cultura .
O pesquisador científico do Centro de Horticultura do IAC, Valdemir Antonio Peressin, destaca que a produtividade da nova variedade foi 48,60% superior à da batata-doce Canadense — atualmente a líder de cultivo no território paulista — e superou em 74,90% a Mineirinha e em 120,99% a Uruguaiana .
A precocidade é outro atributo valorizado: o ciclo da "IAC Dom Pedro II" varia de 100 a 120 dias na primavera/verão e de 120 a 150 dias no outono/inverno, permitindo planejamento e rotação de culturas .
Alimento funcional contra a carência de vitamina A
O grande diferencial da nova batata-doce está na sua polpa de cor alaranjada escura, resultado da alta concentração de betacaroteno. De acordo com Peressin, o consumo de apenas 30 a 60 gramas da "IAC Dom Pedro II" supre as necessidades diárias de betacaroteno no organismo humano .
O betacaroteno é um poderoso antioxidante que o corpo transforma em vitamina A, nutriente essencial para o sistema imunológico, para a acuidade visual, para a proliferação e diferenciação celular e para a expressão gênica . Crianças menores de cinco anos, gestantes e lactantes estão entre os grupos mais vulneráveis à deficiência desse micronutriente .
Alimentação escolar como vitrine
A nova batata-doce já está no radar de políticas públicas. A prefeitura de São José do Rio Preto planeja dobrar a área de cultivo e utilizar o alimento na rede de creches municipais . A iniciativa pode servir de modelo para outros municípios, transformando a merenda escolar em uma ferramenta de combate à desnutrição.
A "IAC Dom Pedro II" — que foi apresentada na Agrishow 2025 e na 6ª Feira Tecnológica da Batata-doce (Batatec) — é uma das 11 cultivares desenvolvidas pelo programa de melhoramento genético do IAC, reativado em 2016 . O instituto já havia conquistado o prêmio Josué de Castro, na categoria Pesquisa Científica, com outra variedade biofortificada, a IAC 134 AL01, que apresenta 82,40 vezes mais carotenoides que as cultivares tradicionais .
Com sabor adocicado e textura agradável, a "IAC Dom Pedro II" chega ao mercado como uma solução que une o que o campo precisa — alta produtividade e rentabilidade — com o que a sociedade demanda: alimento de qualidade, acessível e funcional.
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