O INVISÍVEL DE CONCRETO: PRESIDENTE PRUDENTE REGISTRA MÉDIA DE 258 FAMÍLIAS EM SITUAÇÃO DE RUA NA ÚLTIMA DÉCADA E MEIA
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| fonte da imagem: CBN Prudente |
Cruzamento de dados históricos e levantamentos da assistência social revela que, apesar dos ciclos econômicos, a população em situação de rua se consolidou como uma chaga estrutural na capital do oeste paulista; perfil muda e famílias inteiras substituem o antigo “andarilho solitário”
PRESIDENTE PRUDENTE/SP – A imagem do andarilho solitário, com sua trouxa de roupas e um carrinho de supermercado, ainda existe, mas já não é mais a única face da população em situação de rua em Presidente Prudente. Dados consolidados da Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) compilados nos últimos 14 anos apontam para um fenômeno mais complexo e alarmante: em média, 258 famílias – e não apenas indivíduos isolados – estiveram em situação de rua na cidade a cada ano, entre 2010 e 2024.
O número, extraído de relatórios do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) e dos censos da Vigilância Socioassistencial, desenha um retrato duro de uma cidade que cresceu economicamente, mas que viu a desigualdade se estender pelas calçadas.
“Quando falamos em ‘famílias’, o dado muda todo o paradigma da abordagem. Não estamos falando apenas de dependentes químicos ou pessoas com transtornos mentais em abandono. Estamos falando de casais com crianças pequenas, de mães solo com recém-nascidos, de idosos que perderam o vínculo familiar e foram despejados junto com seus cônjuges”, explica Helena Galvão, assistente social e coordenadora do Centro POP entre 2017 e 2020.
O PERFIL QUE SE TRANSFORMOU
A última década e meia testemunhou uma mudança drástica no perfil dessa população. Se no início da série histórica, por volta de 2010, o foco do atendimento era majoritariamente homens adultos com histórico de migração ou dependência química, a partir de 2015, com o agravamento da crise econômica nacional, o perfil começou a se diversificar.
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| fonte da imagem: Prudente news |
“Recebemos famílias inteiras que vieram de cidades pequenas da região [como Regente Feijó, Martinópolis e Pirapozinho] com a promessa de emprego na construção civil ou no setor de serviços que não se concretizou. Sem rede de apoio e com o aluguel atrasado, o passo da pensão para a rua é muito curto”, relata Marcos Túlio, atual coordenador da abordagem social da SAS.
A média de 258 famílias não significa que as mesmas pessoas estejam na rua há 14 anos. O número é uma fotografia da movimentação: famílias que chegam, outras que conseguem sair através de programas habitacionais ou reinserção familiar, e um núcleo duro que permanece em situação crônica de rua.
OS NÚMEROS POR TRÁS DA ESTATÍSTICA
Para chegar a essa média, a reportagem analisou os relatórios anuais do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) no município. Em 2010, o primeiro censo municipal específico contabilizou 187 núcleos familiares em situação de rua. O número oscilou durante a década, atingindo um pico preocupante em 2021, no auge da pandemia de Covid-19, quando a cifra saltou para 341 famílias.
A pandemia foi um capítulo à parte. Com o fechamento do comércio e a suspensão de trabalhos informais (como flanelinha e coleta de recicláveis), muitas famílias que viviam em cortiços ou pensões precárias não conseguiram pagar o aluguel. O êxodo para as ruas foi massivo.
“Eu nunca tinha dormido na rua até maio de 2021. A gente morava de aluguel no Jardim Bongiovani. Eu trabalhava de diarista e meu marido em uma oficina. A oficina fechou, as casas pararam de chamar diarista. Ficamos três meses sem pagar aluguel. O dono da casa trocou a fechadura com a nossa roupa dentro. Hoje a gente está aqui, no barracão da antiga estação, mas é frio, é perigoso”, desabafa Maria Aparecida da Silva, 42 anos, que vive em um barraco de lona montado nos arredores do terminal rodoviário urbano com o marido e dois filhos de 7 e 9 anos.
A história de Cida ilustra outro fator apontado pela média de 258 famílias: a invisibilidade dos "invisíveis". Muitas dessas famílias não estão deitadas em praças centrais, mas sim em barracos improvisados em terrenos baldios na periferia, embaixo de viadutos nas rodovias que cortam a cidade (como a Raposo Tavares) ou em construções abandonadas nos bairros afastados.
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| fonte da imagem: Diário de prudente |
A RESPOSTA DO PODER PÚBLICO
Diante desse cenário crônico, a estrutura da cidade precisou se adaptar. O antigo albergue municipal deu lugar a uma política mais ampla. Hoje, Presidente Prudente conta com o Centro POP, que oferece alimentação, higiene e encaminhamento para vagas de emprego, além de duas unidades de acolhimento institucional: uma para famílias e outra para mulheres com crianças.
Apesar da estrutura, a demanda supera a oferta. As vagas em abrigos são limitadas, e a fila para programas habitacionais como o "Aluguel Social" (que concede um auxílio financeiro mensal para que a família pague um aluguel privado) é longa e burocrática.
“A média de 258 famílias nos mostra que a abordagem só de emergência não resolve. Enquanto não houver integração entre políticas de habitação, geração de emprego e saúde mental, a rua continuará sendo o destino final dos mais pobres. O auxílio-aluguel é uma muleta, mas não cura a fratura. Precisamos de empregos que absorvam essa mão de obra, muitas vezes de baixa escolaridade”, argumenta a vereadora Professora Joana Darc (partido fictício), membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal.
A CIDADANIA NEGADA
Viver em situação de rua em Presidente Prudente, uma cidade de clima quente e seco na maior parte do ano, é um exercício diário de sobrevivência. Durante o dia, o calor escaldante do concreto; à noite, o frio que chega a surpreender no inverno, especialmente nas madrugadas.
Além das intempéries, há o preconceito. Levantamento da própria ouvidoria municipal aponta que 30% das denúncias recebidas envolvendo a população de rua são de comerciantes e moradores que pedem a "retirada" dessas pessoas das proximidades de seus estabelecimentos, sob a alegação de que "afastam a clientela".
“A gente não tem onde guardar as coisas. A gente acorda e já tem que sair andando porque se a polícia passa, recolhe nossos pertences ou manda a gente tirar o papelão da porta da loja. A gente vira um estorvo”, desabafa José Carlos Mendes, 53 anos, que dorme na Praça 9 de Julho há dois anos, desde que perdeu o emprego de servente de pedreiro.
A história de José e de Maria Aparecida está refletida no número 258. Ela representa a falha de um sistema que, embora tente acolher, não consegue reintegrar.
O FUTURO E A PERSISTÊNCIA DO PROBLEMA
Especialistas consultados pela reportagem apontam que, para reduzir essa média histórica, é necessário um pacto interfederativo. Projetos como o "Moradia Primeiro" (Housing First), que oferece uma casa para a pessoa em situação de rua sem exigir contrapartidas como estar limpo ou empregado, têm mostrado resultados positivos em cidades como Porto Alegre e São Paulo, mas ainda não foram implementados em larga escala em Prudente.
Enquanto isso, a rotatividade nos abrigos continua. Famílias entram e saem, mas o estoque de pobreza extrema se renova. A média de 258 famílias é mais do que um número: é o atestado de que, nos últimos 14 anos, a cidade viu crescer os prédios, o comércio e o agronegócio, mas não conseguiu incluir os seus.
Ao caminhar pelo centro da cidade ou pelos bairros periféricos, os prudentinos podem não perceber, mas a cada esquina, uma dessas 258 famílias luta para reconstruir, com papelão e restos de solidariedade, a dignidade que o concreto insiste em esconder.
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