‘Um milagre chamado Alice’: Após abortos e gestações de alto risco, mãe atípica do interior de SP vence trombofilia
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| fonte da imagem: G1 Globo |
Corretora de imóveis de 31 anos enfrentou quatro perdas gestacionais, uma trombofilia de alto risco e o diagnóstico de atipicidade da filha para entregar mensagem de esperança: “Não desista de lutar”
Eram quatro testes de gravidez espalhados sobre a mesa da sala. Lisandra Cavicchio Brandão Cerqueira, 31 anos, olhava para aquelas listras rosas com um misto de euforia e paralisia. As duas gestações anteriores haviam terminado em abortos espontâneos antes da oitava semana. O terceiro, uma perda silenciosa que ela aprendeu a não anunciar antes do tempo. Quando enfim veio a quarta confirmação — desta vez com batimentos cardíacos detectados —, o medo ainda pesava mais que a alegria.
Natural de São Carlos, no interior paulista, Lisandra descobriu na quinta tentativa que carrega uma trombofilia genética — distúrbio que aumenta a propensão a coágulos sanguíneos e dificulta a irrigação da placenta, causando abortos de repetição e restrição de crescimento fetal. “Cada ultrassom era uma trincheira”, lembra. O tratamento exigiu duas injeções diárias de anticoagulante no abdome, repouso absoluto e monitoramento semanal. Mesmo entre gestações de alto risco, o caso dela foi classificado como “limítrofe” por especialistas.
Aos seis meses, um novo abalo: o exame morfológico apontou alterações neurológicas. A pequena Alice nasceu prematura, com 34 semanas, pesando 1,9 kg. Veio chorando forte — e esse choro, para Lisandra, foi a maior música já ouvida. “Ela é meu milagre. Cada célula dela é uma resposta a todas as lágrimas que derramei”, diz.
Alice hoje tem 2 anos e é uma criança atípica. Ainda não anda nem fala, frequenta terapias multidisciplinares e tem uma rotina cercada de neurologistas, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Lisandra, que trabalhava como corretora de imóveis em ritmo integral, precisou reduzir a jornada e aprender uma nova cartilha: a da maternidade atípica em uma cidade do interior, onde recursos especializados são escassos.
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| fonte da imagem: G1 Globo |
“No começo, sofri um luto duplo: o da gestação perfeita que não tive e o da criança típica que idealizei. Hoje entendo que minha filha é inteira do jeito dela”, reflete. A rotina inclui madrugadas acordada para aplicar injeções nela mesma — porque o tratamento da trombofilia continua no pós-parto — e manhãs inteiras em corredores de clínicas.
A mensagem que Lisandra quer deixar ecoa em cada entrevista e postagem: “Não desista de lutar. Mãe atípica é mãe de verdade, com dupla jornada e um amor que transborda. Se você sofreu perdas, se seu corpo falhou, se o diagnóstico veio diferente do sonhado: persista. O milagre não é a perfeição. É o amor que sobrevive a tudo.”
Hoje, com Alice no colo e uma carteirinha de plano de saúde nas mãos, Lisandra se prepara para mais uma cirurgia da filha. Diz que não trocaria um segundo sequer. Porque para ela, vencer a trombofilia não foi apenas parar de abortar — foi aprender a nascer junto com Alice, todos os dias.
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