A Sinfonia dos Condenados

 


A Sinfonia dos Condenados



Quando os cães anunciam o que os olhos humanos se recusam a ver










A morte nos rodeia. Isso é um fato tão antigo quanto a própria vida, uma verdade silenciosa que nos acompanha a cada passo, a cada respiração, a cada batida incerta do coração. Todos os dias, ao sairmos para trabalhar, para comprar pão, para visitar um amigo ou simplesmente para sentir o vento no rosto, carregamos conosco um pacto invisível. O pacto de que talvez — apenas talvez — aquele seja o último amanhecer que nossos olhos testemunharão. A consciência de que qualquer esquina pode esconder um fim, qualquer estrada pode não ter volta, nos deixa com um frio profundo na barriga, um aperto que muitos preferem ignorar, abafado pela rotina e pelo barulho ensurdecedor do mundo dos vivos.

Mas essa é a natureza do mundo. Nascemos, crescemos, e em cada célula do nosso corpo já está gravada a sentença da decadência. Vivemos para, um dia, morrermos. É a condição mais democrática que existe: o rico, o pobre, o santo e o vilão — todos compartilham o mesmo destino final. Não há para onde correr. A hora de cada um vai chegar como um ladrão silencioso, pisando macio no tapete dos dias comuns. Até aí, tudo é normal, quase banal. A morte é a única certeza em um oceano de incertezas. No entanto, dentro dessa normalidade aterradora, existe um fenômeno que desafia a lógica, que rasga o véu da realidade cotidiana e nos mostra um vislumbre de algo muito mais sombrio. Algo que os cães, aqueles antigos companheiros de jornada da humanidade, entendem melhor do que nós.

Você já percebeu? Quando há uma pessoa em sua rua — aquela casa no fim do quarteirão, ou o velho solitário do apartamento ao lado — que já está muito ruim, consumida por uma doença incurável ou simplesmente vergada pelo peso implacável dos anos, algo estranho começa a acontecer. Não é imediato. Não é um evento que se anuncie com trombetas ou clarões. É mais sutil, mais primitivo. É como se o ar ficasse mais pesado, como se uma sombra extra se estendesse sobre os telhados e calçadas. E então, quando a noite cai, quando o mundo dos homens finalmente se cala e apenas o vento lamenta entre as árvores, a sinfonia começa.




Os cachorros. Todos eles. O vira-lata caramelo da esquina, o pastor alemão atrás do portão azul, a pequena cadela de apartamento que quase ninguém vê, mas que sempre late para entregadores. Todos começam, um a um, a erguer o focinho para o céu escuro. Não é o latido comum, aquele aviso de invasão ou de brincadeira. É um uivo. Longo, trêmulo, gutural. Um som que parece vir não da garganta do animal, mas de algum lugar muito mais fundo — talvez de uma memória ancestral, de um tempo em que os lobos uivavam para anunciar a morte nas estepes geladas. E o mais impressionante, o mais sinistro, é a sincronia. Os uivos se encontram no ar, se entrelaçam como cordas de um enforcado, formando uma melodia macabra que percorre becos, sobe por janelas fechadas e se infiltra até mesmo sob as cobertas dos que tentam dormir.

Não importa se os cães estão a centenas de metros uns dos outros, se há muros e portas entre eles. Naquele momento, eles se tornam um só coro. Uma orquestra fantasma regida por algo que não podemos ver. E a música que tocam não tem notas — tem presságios. É um fenômeno milenar, sussurrado por avós em noites de ventania, temido por parteiras e carpideiras, registrado nas entrelinhas de livros amaldiçoados. Toda vez que há alguém prestes a cruzar a tênue fronteira entre este mundo e o outro, os cães sabem. E eles cantam. Cantam o réquiem antes que o padre seja chamado, cantam o adeus antes que o último suspiro escape dos pulmões.

E o que é ainda mais aterrorizante, mais perturbador para a mente humana que busca padrões e explicações reconfortantes, é o silêncio que se segue. Depois que a pessoa — ou pessoas — finalmente falece, depois que o corpo é levado e as flores murcham sobre o túmulo recente, você não escuta mais um único uivo. Dias passam. Semanas. Às vezes meses. Nenhum cão naquela rua, naquela vila, naquele bairro, emite aquele som funesto. É como se eles tivessem cumprido seu dever, como se a presença que eles sentiam pairando no ar — aquela entidade fria e paciente — tivesse seguido viagem com sua alma recém-colhida. O silêncio, então, torna-se ainda mais ensurdecedor do que a algazarra dos uivos. Porque o silêncio prova que eles estavam certos. Prova que a morte realmente passou por ali, invisível, mas não silenciosa para os ouvidos privilegiados dos animais.

A questão que nos consome, que martela em nossas mentes nas horas mais escuras da madrugada, é esta: o que os cães sentem? O que eles veem nessas semanas de agonia, quando a morte ainda não chegou, mas já acampou na soleira da porta daquele que está partindo? Sabemos, por incontáveis relatos e por um conhecimento que a ciência apenas começa a arranhar, que os animais percebem o que nós, muitas vezes, não vemos — ou nos recusamos teimosamente a acreditar. O mundo sobrenatural é real. Queira você acreditar ou não, queira você chamá-lo de fantasia, de superstição de povos antigos, ou de alucinação coletiva, isso não fará a menor diferença. Ele está lá. Espesso como breu, respirando nas frestas da nossa realidade iluminada por LEDs e telas de celular.

Os cães, em particular, são criaturas liminares. Vivem com um pé no nosso mundo de cheiros e latidos, e outro em um domínio que nós, humanos de sentidos atrofiados, já não conseguimos mais acessar. Eles veem as sombras que se movem onde não há luz. Eles farejam a decomposição antes que o corpo apodreça. Eles sentem o cheiro do medo, da doença, e sim, o cheiro da própria morte — um odor frio, metálico, que não tem correspondência em nenhuma substância viva. Arrisco a dizer, sem medo de ser chamado de louco, que os cães não apenas sentem a morte se aproximando. Eles a veem. Eles enxergam a sombra da morte rondando aquele local, talvez como uma figura imprecisa, um borrão mais escuro que a noite, talvez como uma ausência que se move, um vazio ambulante que suga o calor do ambiente.





Imagine a cena por um momento, e deixe que o horror se instale em seus ossos. Na casa do enfermo, as luzes estão fracas. A família cochila em cadeiras desconfortáveis. O doente respira em um ritmo irregular, como ondas quebrando em uma praia de pedras negras. Do lado de fora, sob o único poste que ainda funciona, um cachorro de rua para. Ele não late. Não rosna. Ele apenas se senta, com as patas firmes no asfalto frio, e vira a cabeça em direção à janela do quarto. Seus olhos, na penumbra, parecem refletir algo que não é desta rua, nem desta cidade. Ele está olhando para algo atrás do vidro, algo que nenhum ser humano ali dentro consegue distinguir. E então, silenciosamente, ele ergue o focinho e começa a uivar. Não é um uivo de lamento. É um uivo de reconhecimento. Como se dissesse: "Eu sei que você está aí. Eu sei o que você veio buscar. E eu não vou me meter. Só vou cantar, porque é meu dever cantar."

Os cães são animais fascinantes. Leais, amorosos, capazes de proteger uma criança com a própria vida. Mas carregam um peso terrível nas costas — o peso de serem os anunciadores silenciosos do fim. Eles são os arautos involuntários da ceifadora. E talvez, no fundo de seus olhos úmidos e escuros, exista uma tristeza que nunca entenderemos completamente. A tristeza de ver o que nós não vemos, de saber o que nós não sabemos, e de ser obrigados a anunciar a morte para aqueles que ainda estão vivos, mas que se recusam a escutar.

Então, na próxima noite em que você ouvir os cães cantando em coro, não tape os ouvidos. Não amaldiçoe os bichos por tirarem seu sono. Ao invés disso, olhe pela janela. Olhe para a casa onde a sinfonia parece se concentrar. E pergunte-se: quem está partindo ali dentro? E, mais importante ainda — quando será a minha vez? Porque os cães uivarão para você também. Um dia, em algum canto silencioso do mundo, um vira-lata qualquer levantará o focinho para a lua e cantará seu nome. E você não estará mais aqui para ouvir.






Morte


Sofrimento


Sobrenatural


Presságio


Fim da vida

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