Violência e armadilha urbana: dois roubos expõem a fragilidade da segurança em Presidente Prudente
![]() |
| fonte da imagem: G1 Globo |
Auxiliar de produção de 55 anos é agredido ao tentar comprar drogas em emboscada; horas depois, açougueiro de 56 anos é assaltado por dupla armada e encapuzada dentro do próprio comércio
Presidente Prudente (SP) – A terça-feira, 21 de março, foi marcada por dois episódios de violência que escancaram diferentes facetas da criminalidade na terceira maior cidade do interior paulista. Em menos de 24 horas, a Polícia Civil registrou duas ocorrências de roubo com características distintas, mas igualmente violentas: uma emboscada disfarçada de negociação de entorpecentes e um assalto a mão armada em um estabelecimento comercial. As vítimas, ambos trabalhadores de meia-idade – um auxiliar de produção de 55 anos e um açougueiro de 56 anos – sobreviveram aos ataques, mas ficaram com marcas físicas e psicológicas.
O engodo da compra de drogas
O primeiro caso ocorreu na região periférica da cidade, por volta do meio-dia. A vítima, um auxiliar de produção de 55 anos cuja identidade não foi divulgada pela polícia para preservar sua integridade, relatou no plantão policial que foi abordado por um indivíduo ainda não identificado que lhe ofereceu a oportunidade de comprar entorpecentes “mais baratos do que o usual”. Segundo o boletim de ocorrência, o homem foi conduzido a um local ermo, supostamente onde estaria a droga. Ao chegar, no entanto, foi surpreendido por pelo menos dois suspeitos que o cercaram e começaram a agredi-lo com socos e chutes.
A vítima tentou reagir, mas estava em desvantagem numérica. Os criminosos levaram sua carteira com documentos, R$ 120 em dinheiro, um celular Samsung Galaxy A13 e um relógio de pulso. Após a violência, os suspeitos fugiram a pé por um beco próximo. O homem, ensanguentado e tonto, conseguiu caminhar até uma casa vizinha, onde pediu ajuda. Moradores acionaram a Polícia Militar, que realizou buscas na região, mas ninguém foi preso até o fechamento desta edição.
O auxiliar de produção foi encaminhado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Itapura com escoriações no rosto, um corte profundo na sobrancelha esquerda (que exigiu quatro pontos) e suspeita de fratura no nariz. Ele permaneceu em observação por algumas horas e recebeu alta no final da tarde. Em depoimento, a vítima afirmou que nunca havia comprado drogas antes e que foi “ingênuo” ao acreditar na oferta. “Eles pareciam confiáveis. Disseram que era um ‘presente’ para novos compradores. Eu não imaginava que era uma armadilha”, lamentou.
A Polícia Civil investiga se os agressores integram uma quadrilha especializada em atrair vítimas por meio de falsas ofertas de drogas – prática conhecida nos meios policiais como “golpe da esculhambação”. O delegado responsável pelo caso, Dr. Renato Mendes (nome fictício para preservar a investigação), afirmou que “a vítima foi escolhida por sua aparente vulnerabilidade. Homens de meia-idade, muitas vezes em situação de fragilidade emocional ou financeira, são alvos fáceis para esse tipo de armadilha”.
Assalto a mão armada no comércio
Horas depois, já no início da noite, outro trabalhador foi surpreendido. Por volta das 19h, um açougueiro de 56 anos, identificado como Sebastião (sobrenome preservado), estava fechando seu estabelecimento na Avenida Brasil, uma das vias mais movimentadas do centro da cidade. Dois indivíduos encapuzados – um deles portando um revólver aparentemente calibre 38 – entraram pelo fundo do comércio, que havia sido deixado destrancado por um funcionário que já havia ido embora.
Os criminosos anunciaram o assalto. O homem armado apontou o revólver para a cabeça do açougueiro, enquanto o comparsa vasculhava a gaveta do caixa. Levaram R$ 580 em espécie, a aliança de casamento da vítima (avaliada em R$ 1.200) e um telefone celular Motorola Moto G52. Antes de fugir, o assaltante desferiu um golpe com o cabo da arma na nuca de Sebastião, que caiu no chão ensanguentado. Os dois fugiram em uma moto Honda CG 150 de cor escura, sem placa aparente.
Um cliente que chegava para retirar uma encomenda viu a cena e acionou a PM. Os policiais chegaram cinco minutos depois, mas os suspeitos já haviam desaparecido. Câmeras de segurança de lojas vizinhas capturaram as imagens dos dois homens, ambos trajando moletons pretos e capacetes fechados. As gravações foram anexadas ao inquérito.
Sebastião foi socorrido pelo Samu e levado ao Hospital Regional com traumatismo craniano leve e um corte profundo no couro cabeludo. Ele permanece internado em observação, mas seu estado é estável. Em entrevista à beira do leito, visivelmente abalado, o açougueiro disse que trabalha há 30 anos no mesmo local e nunca havia sido roubado. “A gente confia na câmera, na grade, mas eles entraram como se fossem donos. Apontei a arma na minha cara e mandou eu ficar quieto. Pensei que ia morrer”, desabafou.
![]() |
| fonte da imagem: G1 Globo |
Cenário de insegurança e resposta policial
Os dois roubos acenderam um alerta na região. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), Presidente Prudente registrou 1.247 roubos em 2022, uma média de 3,4 por dia. Em 2023, até fevereiro, já eram 198 ocorrências. Os números, no entanto, podem ser maiores devido à subnotificação – muitas vítimas, principalmente em casos relacionados a drogas, deixam de registrar boletim de ocorrência por medo ou vergonha.
O delegado Dr. Renato Mendes, que investiga os dois casos, afirmou que “não há, a princípio, ligação entre os crimes, mas a violência empregada em ambos preocupa”. Ele reforçou o pedido para que a população não aceite ofertas suspeitas de venda de entorpecentes e que mantenha portas e fundos de comércios trancados, mesmo durante o expediente. “Os criminosos estão cada vez mais ousados. A arma de fogo não é mais exclusividade de grandes assaltos; aparece até em pequenos comércios de bairro”, complementou.
A Polícia Militar informou, por meio de nota, que intensificará o policiamento ostensivo nas áreas apontadas como críticas, especialmente nas proximidades da Avenida Brasil e nos bairros periféricos onde ocorreu a primeira emboscada. A corporação também orienta que qualquer informação sobre os suspeitos – descritos como magros, entre 20 e 30 anos, um deles com uma tatuagem de uma cobra no pescoço – seja repassada anonimamente ao Disque-Denúncia (181).
Vítimas em lados opostos da mesma moeda
Embora as circunstâncias sejam diferentes – um envolvendo a tentativa de compra de drogas, o outro, um assalto a estabelecimento comercial –, as duas ocorrências expõem a mesma realidade: a violência urbana não escolhe perfil. O auxiliar de produção, morador do bairro Jardim Oeste, já havia sido demitido recentemente e, segundo amigos, estava passando por uma depressão. A suposta oferta de drogas baratas seria uma “válvula de escape”, conforme relatou um conhecido. Já Sebastião é pai de três filhos, nunca se envolveu com crimes e sempre foi visto como um comerciante exemplar.
“Um é vítima de sua própria vulnerabilidade; o outro, do acaso. Mas ambos sangraram no mesmo dia. Isso mostra que a segurança pública precisa ser tratada como política de Estado, não apenas como estatística”, analisa a socióloga e pesquisadora em violência urbana da Unoeste, Dra. Carla Tavares.
Desfecho em aberto
Até o fechamento desta reportagem, nenhum suspeito havia sido preso. As investigações seguem em andamento, com análise de imagens e oitivas de testemunhas. O auxiliar de produção já teve alta hospitalar e tenta recuperar seus documentos. Sebastião continua internado, mas já autorizou a divulgação de seu relato para alertar outros comerciantes.
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Presidente Prudente, que respondeu, por meio da Secretaria de Comunicação, que “reforça o trabalho integrado com as polícias Civil e Militar” e que “projetos sociais de prevenção ao uso de drogas e de apoio a comerciantes estão em andamento”. No entanto, para as vítimas, o que fica é o medo. “Acabou minha confiança. Vou vender o açougue e me mudar”, disse Sebastião. O auxiliar de produção, por sua vez, afirmou que “nunca mais cai em conversa de estranho. O barato saiu caro. Quase paguei com a vida.”
A Polícia Civil pede que qualquer pessoa com informações sobre os crimes entre em contato imediatamente. Enquanto isso, Presidente Prudente amanhece na quarta-feira (22) com mais dois casos de violência sem solução – e com pelo menos dois trabalhadores tentando reconstruir o pouco que lhes restou depois da terça-feira violenta.
Tags
NOTICIAS DO MUNDO
.jpg)
.jpg)