A NOITE EM QUE A MORTE CHEGOU DO CÉU: O MISTÉRIO DA ILHA DO CARANGUEJO

 

A NOITE EM QUE A MORTE CHEGOU DO CÉU: O MISTÉRIO DA ILHA DO CARANGUEJO




Há 48 anos, uma luz misteriosa atacava pescadores no litoral maranhense, deixando um rastro de queimaduras, mortes e silêncio que nunca foi completamente esclarecido










25 de abril de 1977. Uma data que deveria ser apenas mais um dia de trabalho para um grupo de pescadores maranhenses transformou-se em uma noite de terror absoluto. Quando o sol se pôs sobre a Ilha do Caranguejo, ninguém imaginava que, ao amanhecer, um homem estaria morto e outros dois jaziam gravemente feridos, com seus corpos marcados por queimaduras que nenhum médico conseguiria explicar de forma satisfatória .

Localizada ao sul da Baía de São Marcos, a aproximadamente 30 quilômetros da Ilha de São Luís, entre os municípios de Bacabeira e Cajapió, a Ilha do Caranguejo é uma reserva ecológica deserta, visitada apenas por pescadores e catadores de caranguejo . É a segunda maior ilha do Maranhão, cercada por manguezais, com extensos campos e lagoas onde habitam apenas animais selvagens como onças e serpentes gigantes . Mas talvez os habitantes mais temidos sejam os mosquitos cruéis e os caranguejos gigantes que lhe dão nome. Um lugar inóspito, que os moradores das redondezas sempre consideraram "encantado" e "maldito" .

Foi nesse cenário que José Souza, 22 anos, seus irmãos Apolinário, 31, e Firmino, 38, e um primo, Auleriano Bispo Alves, 36, atracaram suas embarcações. Haviam ido até a ilha para retirar troncos de árvores, mas a maré subiu, obrigando-os a pernoitar no local . Dormiram no barco de madeira chamado Maria Rosa, uma embarcação de 15 metros de comprimento, esperando o amanhecer para retornar .

O que aconteceu naquela madrugada, nenhum deles poderia imaginar. E nenhum deles consegue lembrar.



Ao acordar com o dia já amanhecendo, Apolinário percebeu que algo estava terrivelmente errado. José estava morto. Firmino e Auleriano estavam seriamente machucados. Ninguém sabia o que tinha acontecido .

"Ele estava queimado e inchado, e a pele tinha caído", disse Apolinário em depoimento à polícia. "Tentei falar com ele, mas não respondia. Seus olhos estavam fechados e não consegui abri-los. Fiquei apavorado" .

As queimaduras eram graves. Firmino, que ficou em coma por uma semana e passou mais de um mês hospitalizado, teve grande parte do corpo queimada em segundo grau. As marcas mais sérias estavam no lado esquerdo das costelas, na parte interior do braço esquerdo e na testa. Os músculos do braço ficaram tão danificados que seus dedos da mão esquerda permaneceram permanentemente torcidos para dentro, com mobilidade quase nula .

Auleriano também sofreu queimaduras, incluindo uma ampla lesão na nádega direita . Mas um detalhe deixou os investigadores perplexos: a cortina que tampava a entrada do sótão do barco, onde os três dormiam, não apresentava qualquer sinal de queimadura. Nem a bermuda de Auleriano foi chamuscada .






Apolinário, o único ileso, precisou esperar mais de oito horas até a maré subir novamente para conduzir heroicamente o barco Maria Rosa de volta ao cais de Itaqui, em São Luís .



A investigação e as primeiras perguntas

Quando os pescadores chegaram ao porto, ninguém podia acreditar no que viam. O corpo de José foi levado ao Instituto Médico Legal, e Auleriano finalmente pôde ir a um hospital para tratar suas queimaduras. Firmino permaneceu internado .

A notícia se espalhou rapidamente. O Jornal Pequeno, em 29 de abril de 1977, estampou em manchete: "Misterioso acontecimento na Ilha dos Caranguejos" . O comissário de polícia José Argolo foi informado por Apolinário sobre a tragédia. Ao inspecionar o barco, não encontrou nenhum vestígio de luta ou objetos queimados .

A Secretaria de Segurança Pública do Estado assumiu as investigações. Clésio Muniz, chefe de investigação criminal da polícia do Maranhão, viu com seus próprios olhos os homens com as estranhas queimaduras e afirmou categoricamente que elas não foram causadas por um fogo comum .

O delegado José Argolo tentou organizar uma expedição para investigar a ilha, mas encontrou um obstáculo inesperado: o medo. Nenhum policial se voluntariava para ir a um lugar considerado maldito, com exceção do escrivão Moacyr Barros . O delegado Marcelino Ewerton, do 3º Comissariado da Capital, chegou a se comprometer a ajudar, anunciando preparativos curiosos: "Além de balas normais, levarei uma cartucheira com balas devidamente preparadas com palha de alho que, segundo os mais antigos, têm o poder de apartar as coisas do anticristo" . A expedição, ironicamente, nunca aconteceu.


O que diziam os médicos?



Não foi realizada uma autópsia no corpo de José, pois já estava em avançado estado de decomposição quando chegou ao IML . O médico que o examinou escreveu em seu relatório que não havia cortes nem hematomas no corpo. O atestado de óbito declarava que José tinha sofrido um "...acidente vascular cerebral, causado por hipertensão arterial, como consequência de um choque emocional". A causa da morte foi oficialmente atribuída a "choque emocional" .

O falecido doutor Carneiro Belfort visitou Firmino no hospital e ouviu o enfermo murmurar, em pleno delírio, ter visto "um fogo passando fora do barco" . O relato, no entanto, nunca pôde ser verificado, nem mesmo sob hipnose profunda aplicada posteriormente nas vítimas .

Para o policial técnico Jucilmo Salazar, a causa da morte de José teria sido uma "descarga elétrica procedente de um fenômeno natural", semelhante a uma "bola de fogo entrando na atmosfera" . A hipótese, porém, não explicava por que a tal descarga não queimou a cortina do barco nem as roupas das vítimas.

O contexto: uma onda de ataques no Norte e Nordeste

O caso da Ilha do Caranguejo não foi um evento isolado. Em 1977, uma intensa onda de avistamentos de OVNIs e ataques a seres humanos estava sendo registrada não apenas no Maranhão, mas em quase toda a chamada Baixada Maranhense e no estado vizinho do Pará, em plena Região Amazônica .

Os fenômenos ficaram conhecidos popularmente como "Chupa-Chupa" , devido à crença de que as luzes sugavam o sangue das vítimas . Relatos davam conta de objetos luminosos, pequenos ou grandes, semelhantes a esferas brancas, azuis ou alaranjadas, que projetavam finos raios de luz branca ou azul sobre as pessoas, causando paralisia, queimaduras e uma sensação de fraqueza extrema .

No Pará, o pânico tomou conta da pequena cidade de Colares, levando o governo a acionar a Aeronáutica. Em outubro de 1977, o capitão Uirangê Hollanda foi designado para comandar a Operação Prato, uma investigação oficial sobre os ataques .

A operação, que durou alguns meses, coletou mais de 500 fotos e entrevistou mais de 3.000 testemunhas . O próprio capitão Hollanda, inicialmente cético, teria tido um contato imediato com um ser extraterrestre durante as investigações, o que mudou radicalmente sua postura . Os arquivos da Operação Prato foram classificados como ultrassecretos e só começaram a ser parcialmente revelados na década de 2000 .

O jornalista paraense Carlos Mendes, que cobriu os eventos em Colares, relatou ter visto galinhas, patos e porcos fulminados pelas misteriosas luzes. Ele também descreveu o caso de uma cadela que nunca mais latiu depois de atingida por um jato luminoso . A médica sanitarista Wellaide Cecim Carvalho, que atendia as vítimas em Colares, documentou em 60 dias mais de 80 casos de pessoas com lesões semelhantes a queimaduras por radiação: pele avermelhada, queda de cabelo e manchas escuras. Duas vítimas morreram em apenas 24 horas .


As vítimas do Caranguejo e o silêncio que perdura

Nenhum dos três sobreviventes da Ilha do Caranguejo jamais conseguiu se lembrar do menor detalhe daquela noite, nem mesmo sob hipnose profunda . O que viveram permaneceu inexplicado.

Em novembro de 1978, o jornalista e ufólogo americano Bob Pratt, correspondente do National Enquirer e autor do livro "Perigo Alienígena no Brasil", esteve em São Luís para investigar o caso . Com a ajuda de três tradutoras, conseguiu entrevistar os sobreviventes e examinar o barco Maria Rosa, ainda atracado no cais de Itaqui. Não encontrou qualquer vestígio de fogo dentro ou fora da embarcação .

As marcas, no entanto, permaneciam nos corpos. Firmino carregava para sempre as sequelas das queimaduras de segundo grau e os dedos da mão esquerda, permanentemente torcidos .

Até hoje, a Ilha do Caranguejo permanece cercada de mistérios. Relatos de pescadores e moradores do povoado de Penalva, próximo à ilha, dão conta de que à noite é possível ouvir cantos religiosos, semelhantes a salmos, além de lamentos, como se fossem vozes de fantasmas que ecoam das matas do local . Por ser capitaneada pela Aeronáutica, a visitação à ilha não é permitida sem autorização .


um caso em aberto




A polícia maranhense nunca foi capaz de determinar o que aconteceu na Ilha do Caranguejo na madrugada de 26 de abril de 1977. Não há evidências diretas da participação de um UFO, mas as circunstâncias, os ferimentos inexplicáveis e a absoluta falta de memória das vítimas alimentam o mistério há quase cinco décadas .

O caso ganhou contornos ainda mais trágicos com a morte do capitão Uirangê Hollanda, em 1997, dois meses após conceder uma entrevista histórica à Revista UFO detalhando suas experiências na Operação Prato . Oficialmente, suicídio. Para muitos ufólogos, uma morte suspeita, que calou para sempre a principal testemunha militar dos ataques de 1977 .

Enquanto isso, na Ilha do Caranguejo, o vento sopra entre os manguezais, os caranguejos gigantes seguem seu curso e o silêncio dos pescadores mortos e feridos ecoa como um lembrete de que, em algum lugar entre o céu e o mar do Maranhão, há respostas que talvez nunca venhamos a conhecer.

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