Crise no Peru: Congresso destitui presidente José Jerí em meio a escândalo de tráfico de influência
Parlamento aprovou moção de censura por 75 votos a 24; país terá o nono chefe de Estado em dez anos e enfrenta um hiato de mais de 24 horas sem comando no Executivo
O Congresso da República do Peru aprovou, nesta terça-feira (17), a destituição do presidente interino José Jerí por "má conduta funcional e falta de idoneidade para exercer o cargo" . A decisão, tomada em uma sessão relâmpago no Legislativo, marca mais um capítulo da crise institucional que assola o país andino, resultando na saída de Jerí após apenas quatro meses de gestão .
Com 75 votos a favor, 24 contra e 3 abstenções, o plenário atendeu a uma das sete moções de censura apresentadas contra o mandatário, que acumulava a presidência do Congresso e, por sucessão, a chefia do Executivo desde outubro de 2025 . "A mesa diretora declara a vacância da Presidência da República", anunciou Fernando Rospigliosi, presidente interino do Congresso que conduziu a sessão, após a confirmação do resultado.
Diferentemente de um processo de impeachment — que exigiria 87 votos (dois terços do parlamento de 130 membros) —, a destituição foi concretizada via moção de censura, que demanda apenas maioria simples A estratégia permitiu a remoção rápida de Jerí sem a necessidade de construir uma supermaioria, algo que seus aliados questionaram durante o debate, defendendo um rito processual mais amplo, mas que acabou rejeitado pela maioria da câmara
O "Chifagate" e a queda na popularidade
A queda de José Jerí, de 39 anos, está diretamente relacionada a um escândalo que ficou conhecido como "Chifagate" — uma referência à culinária peruano-chinesa "Chifa". Em janeiro, veio a público que Jerí havia participado de reuniões não divulgadas com o empresário chinês Zhihua Yang, dono de lojas comerciais e de uma concessão no setor de energia
Imagens de câmeras de segurança mostraram o então presidente entrando em um restaurante de madrugada, utilizando um capuz e óculos escuros, em um encontro que não constava na agenda oficial A falta de transparência gerou a abertura de uma investigação preliminar pelo Ministério Público por suposto crime de "tráfico de influência e patrocínio ilegal de interesses"
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| fonte da imagem: Correio Brasilience |
A situação se agravou neste mês com uma segunda investigação, desta vez envolvendo a suposta interferência de Jerí na contratação de nove mulheres para cargos no governo, entre outubro e janeiro A Procuradoria busca apurar "se o chefe de Estado exerceu influência indevida" nessas nomeações
Em suas defesas públicas, inclusive em entrevista à televisão no último domingo (15), Jerí afirmou: "Eu não cometi nenhum crime. Tenho plena suficiência moral para poder exercer a presidência da República" Sobre o "Chifagate", classificou o episódio como um "erro de forma", mas negou qualquer irregularidade
Apesar das negativas, o desgaste político foi acelerado. O presidente, que começou sua gestão com aprovação de quase 60% devido a uma postura dura contra o crime organizado, viu sua popularidade despencar para 37% em fevereiro
Durante o debate no Congresso, parlamentares de diferentes espectros justificaram o voto pela saída. "Ele decepcionou o Congresso pelos erros que cometeu; o Congresso se equivocou ao elegê-lo e podemos corrigir o erro", afirmou o deputado de direita Jorge Marticorena Pela esquerda, a parlamentar Susel Paredes endossou: "Este presidente não serve, temos números altos de mortes por encomenda e homicídios, os índices não baixaram"
Vácuo de poder e a dança das cadeiras
Com a destituição, o Peru enfrenta uma situação inédita em sua história recente: ficará por mais de 24 horas sem um chefe de Estado Embora a linha sucessória apontasse para o atual presidente do Congresso, Fernando Rospigliosi, ele recusou assumir o cargo, o que obriga o Legislativo a eleger um novo titular
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| fonte da imagem: Correio do povo |
A eleição para a nova mesa diretora do Congresso está marcada para esta quarta-feira (18), às 18h (horário local). O candidato vencedor assumirá automaticamente a Presidência interina da República, com a missão de comandar o país até 28 de julho, quando tomará posse o presidente eleito nas urnas As eleições gerais — que escolherão novo presidente e renovará o parlamento — seguem mantidas para o dia 12 de abril
Analistas políticos apontam que a pressa na tramitação da censura pode ter um componente eleitoral. "Os partidos que apressam a destituição o fazem porque acreditam que isso poderia ajudá-los a obter mais votos na eleição de 12 de abril", disse à AFP o analista Augusto Álvarez
Com a saída de Jerí, o Peru chega ao seu nono presidente em dez anos, dependendo da contagem, evidenciando a fragilidade das instituições no país Juanita Goebertus, diretora para as Américas da Human Rights Watch, avaliou que "a democracia peruana está ruindo. As constantes mudanças de presidentes são apenas a ponta do iceberg em um país onde o Congresso legisla sistematicamente em favor do crime organizado"
Do lado de fora do Congresso, um pequeno grupo de manifestantes comemorava a decisão com cartazes que acusavam Jerí de ter transformado o palácio presidencial "em um bordel" A comerciante María Galindo, de 48 anos, resumiu o sentimento de parte da população: "Não é nosso presidente, censurem agora, censurem imediatamente"
Contexto: A sucessão de quedas
José Jerí assumiu o poder em outubro de 2025, após a destituição de Dina Boluarte, que foi afastada em meio a protestos contra corrupção e sua incapacidade de conter uma onda de extorsões e assassinatos por encomenda ligados ao crime organizado . Boluarte, que não tinha vice, deu lugar a Jerí por ele ser, na ocasião, o presidente do Congresso
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| fonte da imagem: Gazeta do povo |
Antes de Boluarte, o esquerdista Pedro Castillo também foi destituído no final de 2022, após tentar fechar o Congresso, num movimento interpretado como uma tentativa de golpe de Estado Desde 2016, quando eclodiu um conflito permanente entre o Parlamento (fortalecido) e o Executivo (desgastado), a fragmentação partidária e a ausência de consenso político tornaram o governo peruano uma "roleta" institucional
O último presidente a concluir integralmente seu mandato no Peru foi Ollanta Humala, que governou de 2011 a 2016
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